Invento o momento que nos encontramos por acaso na rua em frente a um bar, os olhares se cruzam inevitáveis em meio a mil promessas vazias.
Há sempre barulhos
confusos abafando o som secreto dos nossos corações sufocados, a banda ao lado tocando
blues, pessoas desfocadas figuram felicidade. Apressada, dirijo meus passos à
jukebox. Você se aproxima inteira, mãos exigentes, num impulso me toma
pelo braço e me arrasta até o balcão enquanto diz:
- Precisamos conversar
Sem esperar inicia um discurso tão
impreciso quanto nossa história enquanto te ouço sem reação, olhar
perdido, rabiscando qualquer disfarce em um guardanapo de papel úmido do copo
de gim.
Finjo friamente que
sua voz não me arrebata meu coração e o corpo inteiro, destruindo as promessas
que fiz a mim de não me importar, interromper teu texto ensaiado e te
cortar com palavras tão afiadas quanto tudo que vem de você.
Te encaro em silêncio, e em meu pensamento grito:
- Olha
para mim!
Mude esse teu tom
desafinado, suas colocações intransigentes, sua voz estridente. Quer mesmo
saber meus porquês? Ou só me pretende para o teu bel prazer? Se for isso o
faça, mas faça de frente, me enfrente, seja sádica se for preciso, seja
você.
Dilacere, machuque, desnude, desvende. Use suas mãos em mim, não teu personagem. Me toque, arranhe, insista, desmascare.
Pare de acreditar nas tuas mentiras, porque estou aqui sem chão, sem direção, sem norte.
Dilacere, machuque, desnude, desvende. Use suas mãos em mim, não teu personagem. Me toque, arranhe, insista, desmascare.
Pare de acreditar nas tuas mentiras, porque estou aqui sem chão, sem direção, sem norte.
Antes que eu pudesse terminar você me toma pelo punho e me leva até o lounge, desliza suas unhas devagar e encaixa seus dedos nos meus nos afastando daquela meia dúzia de pessoas que dançam sozinhas.
Somos só nós ali.
Somos só nós ali.
Teu olhar no meu por três
segundos de eternidade, desafia.
Respiro a sua boca a
três centímetros da minha.
Sua mão na
minha cintura, pulsante, quente. Te
trago mais perto. Desvia os olhos dos meus, urgente. Tenta se esquivar, mas não
consegue.
Teu silêncio é quase uma prece.
Teu silêncio é quase uma prece.
Mergulho em você, me esqueço.
Não quero saber se
todas as palavras já foram usadas, as falas encenadas. Se está aqui
abaixo as cortinas, as luzes, os limites, as esferas.
Invento um novo sentido,
outra atmosfera.
Sussurro no seu
ouvido:
- Vem
Depois de você meus
passos não são mais marcados, nenhum texto decorado
Fica em mim sem
pressa
Se alastre, me
transfunda
Você tem o que é meu
de mais secreto
Um eu só teu
De improviso.
Quando estamos
inteiro um no outro
Quando me perco no
seu corpo
No instante, como
nunca antes,
Te respiro.
Insone, insana, desperto
Continuo muda te olhando apática.
Você lá fora fala sem que eu possa entender. Ouço os ecos misturados ao som
das pessoas barulhentas que figuram nossa cena.
Você me cobra respostas que eu não sei
dizer.
Era noite quente de primavera e o
vento anunciava chuva,
- Deixa eu te levar embora?
Pergunto cheia de ponto e vírgulas.
- Sim...
vc responde com reticências
- Sim...
vc responde com reticências
É amor.
Não importa se te amo ou te odeio.
J.Rubio
Contos Sobre o Amor
2011
