segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Um do Outro


Então por fim me decido, me convenço que jamais e menos de um segundo depois fantasio a gente com a exatidão de um roteiro premiado. 

Invento o momento que nos encontramos por acaso na rua em frente a um bar, os olhares se cruzam inevitáveis em meio a mil promessas vazias.
Há sempre barulhos confusos abafando o som secreto dos nossos corações sufocados, a banda ao lado tocando blues, pessoas desfocadas figuram felicidade. Apressada, dirijo meus passos à jukebox. Você se aproxima inteira, mãos exigentes, num impulso me toma pelo braço e me arrasta até o balcão enquanto diz:

- Precisamos conversar

Sem esperar inicia um discurso tão impreciso quanto nossa história enquanto te ouço sem reação, olhar perdido, rabiscando qualquer disfarce em um guardanapo de papel úmido do copo de gim. 
Finjo friamente que sua voz não me arrebata meu coração e o corpo inteiro, destruindo as promessas que fiz a mim de não me importar, interromper teu texto ensaiado e te cortar com palavras tão afiadas quanto tudo que vem de você.
Te encaro em silêncio, e em meu pensamento grito:

- Olha para mim!

Mude esse teu tom desafinado, suas colocações intransigentes, sua voz estridente. Quer mesmo saber meus porquês? Ou só me pretende para o teu bel prazer? Se for isso o faça, mas faça de frente, me enfrente, seja sádica se for preciso, seja você. 
Dilacere, machuque, desnude, desvende. Use suas mãos em mim, não teu personagem. Me toque, arranhe, insista, desmascare. 
Pare de acreditar nas tuas mentiras, porque estou aqui sem chão, sem direção,  sem norte.

Antes que eu pudesse terminar você me toma pelo punho e me leva até o lounge, desliza suas unhas devagar e encaixa seus dedos nos meus nos afastando daquela meia dúzia de pessoas que dançam sozinhas.
Somos só nós ali.
Teu olhar no meu por três segundos de eternidade, desafia.
Respiro a sua boca a três centímetros da minha.
Sua mão  na minha cintura, pulsante, quente. Te trago mais perto. Desvia os olhos dos meus, urgente. Tenta se esquivar, mas não consegue. 
Teu silêncio é quase uma prece.
Mergulho em você, me esqueço.
Não quero saber se todas as palavras já foram usadas, as falas encenadas. Se está aqui abaixo as cortinas, as luzes, os limites, as esferas. 
Invento um novo sentido, outra atmosfera.
Sussurro no seu ouvido:

- Vem

Depois de você meus passos não são mais marcados, nenhum texto decorado
Fica em mim sem pressa
Se alastre, me transfunda
Você tem o que é meu de mais secreto
Um eu só teu
De improviso.
Quando estamos inteiro um no outro
Quando me perco no seu corpo
No instante, como nunca antes,
Te respiro.

Insone, insana, desperto

Continuo muda te olhando apática. Você lá fora fala sem que eu possa entender. Ouço os ecos misturados ao som das pessoas barulhentas que figuram nossa cena.
Você me cobra respostas que eu não sei dizer.

Era noite quente de primavera e o vento anunciava chuva,

- Deixa eu te levar embora?

Pergunto cheia de ponto e vírgulas. 

- Sim...

vc responde com reticências



É amor.
Não importa se te amo ou te odeio.

J.Rubio
Contos Sobre o Amor
2011